Se a devoção a Nossa Senhora Aparecida já caminha para três séculos a partir do estado de São Paulo, em Sergipe, um município do agreste foi batizado com o nome da Santa, e há quase duas décadas, no dia 12 de outubro, os devotos da Virgem Aparecida, vindo de vários estados, principalmente do nordeste, fazem dela uma das maiores romaria a pé do Brasil.
Do Povoado Queimadas, da cidade vizinha, Ribeirópolis (SE), em direção à sede do município, romeiros percorrem os cerca de 8 km da rodovia estadual, transformando o caminho em uma rota de peregrinação, e durante todo o percurso se houve os relatos de milagres, graças alcançadas e renovação de fé – pagadores de promessas. Não falta o compromisso dos romeiros em afirmar que retornarão no ano seguinte, para pagamento das bênçãos alcançadas.
Com uma população de pouco mais de 8,5 mil habitantes (IBGE, 2007), Nossa Senhora Aparecida recebe durante a procissão cerca de 200 mil romeiros que cresce a cada ano, o caminho que termina no centro da cidade vem animando o comercio local e criando novas perspectivas de desenvolvimento econômico e recebe o olhar atento do poder público.
O município criado em 1963 se chamava Santa Cruz e por último Cruz das Graças, porém foi com o nome mariano que a realidade marcada pela pobreza e pela seca começou a mudar, como um milagre. Apesar de um baixo IDH, o município não vive na pobreza que marcou seu passado, e vem se transformando num prospero município do agreste que começa a vê no turismo religioso a oportunidade de superação – repetindo o sucesso de outras cidades santuários.
Apesar de pouco tempo de criada (2004), a romaria em 2015 foi reconhecida como patrimônio cultural e imaterial do Estado de Sergipe, através da Lei Estadual nº 63/2015, sendo inserida no Calendário Festivo de Sergipe – um reconhecimento oficial que fortalece a economia da região, principalmente para captar recursos federais de promoção do turismo.
Em entrevista ao Portal de notícias G1 (Globo), em 2017, o padre Carlos Gonzaga, pároco da matriz, afirmou que “É de suma importância refletir a Festa de Nossa Senhora Aparecida no seu conjunto “histórico” com o olhar da fé do romeiro de Nossa Senhora. Como se sabe, a Romaria se tornou o ícone histórico do povo sergipano que vem a cada ano manifestar a sua devoção à Mãe de Deus”.
Único livro sobre o surgimento da devoção naquele município sergipano, “Nossa Senhora Aparecida-SE, história, fé e identidade”, publicado em 2015 por três pesquisadores (Aparecido Santana, Isabela Alves e José Leidivaldo), atribui à família do fundador da cidade, a origem da devoção no antigo povoado Maniçoba, hoje sede de Nossa Senhora Aparecida.
Em 1956, José Torquato de Jesus, com 33 anos, e filho de um dos fundadores da comunidade, em razão de problemas financeiros deixou o lugar para viver em São Paulo, onde anos depois adoeceu cometido por uma inflamação de dente, que se agravou. Apesar de todo tratamento médico e cirurgia nada curava a enfermidade que começava a se estender com inchaço no pescoço, recebendo o diagnostico médico que a situação era irreversível.
Com fortes dores de cabeça, Torquato deita para dormir e diz que durante a noite recebeu a visita da Santa Aparecida, e acordando chama a esposa, dona Lina, para dizer que iriam voltar ao povoado de Maniçoba, pois Nossa Senhora teria lhe dito que ele seria curado da enfermidade se voltasse ao seu povoado e lá construísse uma capela dedicada a Ela.
Segundo os pesquisadores é incerta a data da cura, mas afirmam que ele teve melhora do quadro de saúde entre 12 e 30 de maio daquele ano e, então, cumpriu a promessa, construindo uma capela e depois renomeando oficialmente o município com novo nome, em 24 de dezembro de 1975.
A notícia da suposta cura milagrosa se espalhou e a capela anos depois foi elevada a matriz, a devoção foi se popularizando entre os munícipes que também já tinham como referência a devoção nacional, não demorou e toda a região começava a fazer de lá um ponto de peregrinação.
Lucas Oliveira, da Pastoral da Comunicação da Paroquia de Nossa Senhora Aparecida nos diz que não existe uma afirmativa de que o miraculado tenha recebido a visão acordado ou sonhado. Torquato, já falecido, nunca esclareceu como recebeu a mensagem, mas a família mantem até hoje o testemunho do seu patriarca, que vem sendo seguido como fé.
Na série de testemunhos de graças e curas, destaca-se as narrativas de Teresinha de Oliveira, que segundo ela, diagnosticada com dois aneurismas recebeu do médico a notícia de pouco tempo de vida e/ou a tentativa de uma cirurgia que deixaria paraplégica. Meses depois foi encorajada para fazer uma cirurgia com poucas chances de vida, mas pediu a intercessão de Nossa Senhora Aparecida para obter a cura na cirurgia, e ao sair da sala cirúrgica estava curada e sem sequelas.
Texto:
AGUIAR, Múcio. Santos Populares do Nordeste, volume: NS Aparecida, um milagre em Sergipe. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2021.